junho 15, 2010

Thoreau e o Indivíduo em Contato com a Natureza

6ª reunião do grupo de Estudos Humanistas, realizada em 11 de Junho.


1. Biografia


• Henry David Thoreau nasceu em 1817, na cidade de Concord.
• Formou-se em Literatura Clássica e Línguas pela Universidade de Harvard. Chegou a ser professor durante alguns anos, mas seus métodos heterodoxos (por exemplo, passeios de campo e não aplicar castigos físicos) geraram críticas e divergências com a escola. Trabalhou durante algum tempo como conferencista e escritor.
• Ligou-se ao Transcendentalismo, que acreditava em um estado espiritual ideal que transcendia o empírico e o prático, sendo realizável somente pela intuição do indivíduo. Tal movimento era formado por escritores como Ralph Waldo Emerson, mas Thoreau não concordava com algumas reflexões mais místicas do grupo, alegando ter maior foco na vida e no presente.
• Foi preso em 1846, por sonegação fiscal; já fazia seis anos que ele se recusava a pagar impostos. Sua tia, no entanto (e contra a vontade de Thoreau), pagou a fiança, e ele foi solto no dia seguinte. Esta experiência o marcou profundamente, e influenciaria seus escritos e atuação pública dali em diante.
• Em sua última década, demonstrou grande interesse por botânica, história natural e narrativa de viagens e expedições. Morreu de tuberculose aos 44 anos, em 1862, em sua cidade-natal.

2. Interpretação


• O autor morou dois anos perto do lago Walden, em um estilo de vida modesto, vivendo com o mínimo de recursos possível. Sendo assim, construiu a sua própria casa, plantou um jardim e, gastando o mínimo possível, comprou e cultivou comida.
• O livro possui certa alternância entre capítulos mais descritivos e analíticos, sempre marcados pelo humor e a perspicácia do autor ao observar a mesquinhez da vida urbana e o desprezo do homem moderno pela natureza. “Walden” possui um estilo bem metafórico, repleto de aforismos.
• Quem nada possui não luta com encargos desnecessários herdados. Quanto mais se possui, mais pobre se é, pois um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir.
• A opinião pública é uma débil tirana; o que indica o destino de um homem é o que ele mesmo pensa de si. Talvez seja pela resignação à própria autonomia que a maioria dos homens leva vidas de sereno desespero. Eles não percebem que existem outros tipos de vida além daqueles que aceitam ou consideram como bem sucedida.
• São poucas as coisas realmente necessárias à vida; dentre aquelas indispensáveis, são apenas quatro: alimento, abrigo, roupa e combustível. Infelizmente, coisas supérfluas são freqüentemente elevadas ao status de necessidade. As pessoas poderiam lidar melhor com a realidade, pois é somente a ela que almejamos em se tratando de vida ou morte.
• O autor diz que, se houvesse um público-alvo para o seu livro, seriam os estudantes pobres. Como viver – e em liberdade – da maneira mais econômica possível? É desejável que cada um se empenhe em descobrir e seguir seu próprio caminho; a auto-manutenção, se conduzida com sabedoria e simplicidade, é um passatempo, e não um sofrimento.
• O autodidatismo e a atitude “faça você mesmo” são louváveis; de que adianta, por exemplo, estudar economia política se o estudante não aprende a economia de viver, sinônima da filosofia? Com isso, o aluno aprende Adam Smith, Ricardo e Say, mas faz com seu pai fique irremediavelmente endividado.
• Thoreau afirma que foi para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontando-se apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a lhe ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Compete a todo homem fazer a própria vida, inclusive nos pormenores, para que suas horas mais elevadas e críticas sejam dignas de contemplação.
• Nossa vida é como uma Confederação Germânica, composta de pequenos estados com as fronteiras sempre flutuando. Uma vida mesquinha, sem simplicidade, é lamentável, na medida em que não valoriza uma conduta calma e sábia.
• O autor não gosta de ler jornais, pois acha a maioria esmagadora das notícias repetitivas, sem novidades e pouco notáveis. Se a pessoa já se familiarizou com um princípio, que importam os inúmeros exemplos e aplicações?
• O famoso capítulo “Leituras” critica a falta de uma cultura letrada em Concord, e faz uma defesa das letras clássicas e de uma literatura mais sofisticada: Os livros encerram o mais precioso tesouro do mundo e a digna herança das gerações e nações. Só escalando esse monte de sapiência é que podemos ter a esperança de alcançar os céus algum dia.
• Os clássicos têm a qualidade de serem íntimos e universais; encerram em si verdades imortais, ensinando-nos a sabedoria e a liberdade. Eles nos treinam para a vida, revelam faces inéditas das coisas. Quantos de nós não inauguramos nova etapa na vida a partir de um livro?
• Para o autor, não podemos ser uma raça de homens-passarinhos cujos vôos intelectuais mal alçam um pouco acima das colunas do jornal. O hábito cômodo da leitura fácil pode levar ao embotamento da visão, a paralisia da circulação vital, o delíquio (desfalecimento) generalizado e o despojamento de todas as faculdades intelectuais. Além disso, reflete uma negligência pela educação, inclusive se considerarmos os gastos públicos nessa matéria.
• Thoreau exorta-nos a construir um arco de sabedoria sobre o abismo escuro da ignorância que nos isola. Que sejamos como o fidalgo de bom gosto que se cerca de tudo quanto contribui para a sua cultura: gênio, erudição, espírito, livros, quadros, estátuas, música, instrumentos filosóficos etc.
• Somos parte integrante da natureza. Ela é como os remédios botânicos de nossa universal e vegetal bisavó, a pílula que nos mantêm bem, serenos e satisfeitos. Sendo ela uma perene fonte de vida, não faz sentido acreditar que alguém que vive fora da sociedade está se isolando. “Deus é só, porém o diabo é legião”. Afinal, a própria sociedade é apenas um ponto no universo. Sendo assim, o contato com a natureza reflete uma aceitação de leis ainda mais sagradas que a do grupo social. Portanto, Thoreau diz que, nos bosques, vive em solidão, mas não solitário, pois está ligado ao ambiente.
- O autor faz um elogio do senso comum enquanto fonte de conhecimento social no capítulo “Visitas”. Ele faz um relato sobre um lenhador canadense com quem fez amizade; era um sujeito que ainda não tinha a doença e o vício que empenam moralmente o mundo. Dotado de humildade, simplicidade e inocência, ele prezava pela verdade e a franqueza. Embora seu lado intelectual e espiritual estivessem cochilando como numa criancinha, e seu entendimento das coisas muitas vezes seguisse um estrito utilitarismo, o lenhador tinha opinião própria, uma casa rara entre as pessoas da região. Certa vez, perguntaram-lhe se não queria que o mundo mudasse; sua resposta desconcertante foi “Não, gosto bastante dele”. Ele tinha certa originalidade positiva, com observações e explicações (ex.: conveniência do dinheiro) tão boas quanto a de um filósofo. Sendo assim, era como um “príncipe disfarçado”, que provava a possibilidade de um homem de gênio nas classes sociais baixas.
• A natureza é um antídoto contra a melancolia, pois nos deixa ligados a sentidos serenos. Não podemos deixar que as companhias ocupem excessivamente nosso tempo, prejudicando nossa tranqüilidade e independência. Hospitalidade é diferente de caridade. Somos mais humanos quando estamos diante de apenas nós mesmos. Aceitar a suposta liga de defesa mútua que o povoado pretende ser seria como viver em promiscuidade, sem respeito mútuo.
• Em sua casa, Henry David Thoreau tinha três cadeiras: uma para a solidão, duas para a amizade e três para as reuniões. As companhias podem ser agradáveis, boas visitas, contanto que saibamos estabelecer limites, evitando pessoas que incomodam, ou um espírito de comunidade que pode ser perigoso se excessivo, deixando-nos mortos em vida. Os indivíduos são como nações, com fronteiras e territórios neutros entre eles.
• Há uma duplicidade de instintos: a vida espiritual e a vida selvagem. Por serem dotados de disposições mais favoráveis para observar a natureza nos intervalos (ao contrário dos filósofos e poetas, que se aproximam dela já com expectativas), os pescadores, caçadores, lenhadores e demais pessoas que passam a vida em campos e bosques são homens por excelência. Aliás, nesse sentido o caçador é o melhor amigo dos animais, mais até que a Sociedade Protetora.
• A boa ciência é aquela que relata o que já sabemos na prática; ou seja, o que já aprendemos com a experiência humana. Deve-se buscar a dieta mais simples e saudável, pois a sobriedade, inclusive sob a forma de castidade e pureza, é preferível à sensualidade, ao apego material excessivo. A oposição comida x apetite elucida tal idéia.
• Toda a nossa vida é surpreendentemente moral, sem um só instante de trégua entre a virtude e o vício. A bondade é o único investimento que nunca falha.
• Outro grande momento de “Walden” é a descrição de uma batalha de formigas (ruivas “republicanas” x pretas “imperialistas”), no capítulo “Vizinhos Irracionais”. Em uma guerra que possuía a verdade acepção de “bellum”, as combatentes lutavam com ferocidade. Pareciam até mesmo dotadas de patriotismo e heroísmo, em um verdadeiro duelo do tipo “Vencer ou morrer”. Eis um dos exemplos para ilustrar a idéia de que os animais são como bestas de carga que transportam boa parte de nossos pensamentos, muitas vezes revelando pureza e inteligência esclarecida pela experiência.
• Todo homem é senhor de seu reino, Colombo de seus continentes. Por isso, muitas vezes, o patriotismo é como uma larva que se instala na cabeça das pessoas. É preciso ter visão e coragem para aceitar o preceito “Conhece-te a mim mesmo”; são os covardes e derrotados que vão para as guerras.
• A questão não é se o homem deve se colocar em oposição à sociedade, mas sim a manutenção de uma atitude compatível com as leis de seu ser, as quais não estarão em oposição às leis governamentais – se, é claro, ele tiver a sorte de se defrontar com um governo justo.
• Comparados com os antigos ou mesmo com os elisabetanos, será que os americanos são anãos intelectuais? Não, pois cada um deve se ocupar de seus próprios afazeres. Mais vale um cão vivo que um leão morto. As coisas não mudam; somos nós que mudamos: eis o argumento que Thoreau utilizou para, dois anos e meio depois, abandonar os bosques. Alegou que ainda tinha várias vidas para viver.
• Mais que amor, dinheiro e fama, que se dê a verdade. A lucidez é digna de elogio, pois uma pessoa deve priorizar o tem que dizer e não o que deveria dizer. A auto-complacência é uma característica lamentável de nosso século (XIX), tão desassossegado, nervoso, dinâmico e vulgar. Mesmo assim, a vida bela e alada pode se fazer ouvir, em meio às camadas concêntricas de madeira da vida seca e morta da sociedade. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados.
• Pode-se afirmar, após a leitura de “Walden”, que Thoreau vê a libertação como emancipação de necessidades artificiais, assim como um maior contato com a natureza. Para ele, o indivíduo jamais deve se deixar escravizar pela opinião pública. Ou seja, enfrentar e viver a vida, mesmo se sua conduta for encarada como “extravagância”. O que importa é avançar confiantemente, esforçando-se por viver a vida que se imagina e quer.


3. Revisão Bibliográfica


• “Walden, de Henry David Thoreau é uma celebração do mundo natural e uma sugestão de escape à sociedade industrial (que, à época, se econtrava nos seus primórdios). Um escape radical à organização mecânica da sociedade humana, um escape poético, idealista: que o homem moderno abandone as suas máquinas, as suas posses, as regras opressoras de uma sociedade viciosa e, plena e sabiamente, regresse à selva. (...) Walden é, apesar da sua composição cuidada e quase poética, um manifesto prático. Thoreau não pretendia apenas mostrar como a vida no campo poderia ser agradável; queria descredibilizar a sociedade industrial do Século XIX, demonizar o progresso e o desenvolvimento material. (...) Dois anos de isolamento, de vida simples, de observação da natureza e de procura de uma transcendência vagamente impossível no centro de uma sociedade industrializada, produziram um livro belo e intensamente poético, escrito com mestria e cheio de boas intenções. Boas intenções que inspiraram, e ainda inspiram, a seita ambientalista - que nos nossos dias é mais uma regra do que a excepção corajosa que era quando Thoreau compôs o seu Life in the Woods - , ou o movimento hippie, nos anos sessenta.” (blog “Literatura dos Estados Unidos até 1900”)

• “Embora às vezes difícil de se ler por seu tom tão minucioso em relação à contemplação da natureza que Thoreau fez nos dois anos em que morou perto do Lago Walden, a obra é memorável. É raro ver um escritor que consegue encantar tanto o leitor com a celebração de seu estilo de vida. O Henry David Thoreau de "A Desobediência Civil" também está presente aqui, com todo o seu individualismo e misantropia - obviamente, no melhor sentido que tais posturas possam vir a ter.
O livro, embora alterne entre capítulos mais descritivos e outros mais analíticos, tem certas passagens que se sobressaem, seja pelo humor (como a do título) ou pela perspicácia em analisar o quanto a mesquinhez da vida urbana e o desprezo pela natureza podem apodrecer a alma do ser humano. (...) [O capítulo] "Leituras”, [por exemplo], é excelente na tentativa de enfatizar o valor dos clássicos que formaram o chamado Cânone Ocidental. [Devo] reconhecer que, a despeito da distância histórica entre eu e ele - afinal, em 1847 eu talvez gostasse mais de viver em contato com a natureza -, ainda tenho algo a aprender com um sujeito que foi viver nos bosques e que, de tal solidão, retirou uma valiosa experiência de vida.”
(blog “Racio Símio”)

4. Influência


• Embora subestimado na época (Stevenson disse que sua ida aos bosques foi “afeminada”; Emerson dizia que era pouco ambicioso), ao longo dos anos este escritor tornou-se um símbolo da cultura americana. O pensamento social e filosófico dos EUA foram muito influenciados pela abordagem de H. D. Thoreau. Por exemplo, a sua concepção de um individualismo dotado de responsabilidade socioambiental: “é preciso primeiro aprimorar o indivíduo para aprimorar o mundo”.
• Mahatma Gandhi, líder político no processo de Independência da Índia (1947), leu o livro quando estava na prisão, na África do Sul. Quem lhe recomendou a leitura foi o escritor russo Leon Tolstoi.
• Resistência passiva: vários movimentos por direitos civis durante o século XX (inclusive o de Martin Luther King, nos EUA) se inspiraram em “A Desobediência Civil” ao fazer protestos políticos baseados na não-cooperação com o Estado e no pacifismo.
• Libertarianismo: suas posições anti-Estado e favoráveis à liberdade individual, à independência e ao livre mercado foram de grande influência para esta corrente. Segundo o livro "Radicals for Capitalism" (Brian Doherty), que conta a história do movimento libertário, máximas do autor como “O melhor governo é o que governa menos”.
• Ecologia: H. D. Thoreau é considerado um dos primeiros ambientalistas. Ele associava natureza com liberdade, e demonstrava ceticismo quanto ao progresso tecnológico.
• “Na Natureza Selvagem" (“Into the Wild”), filme baseado na história de Christopher McCandless, um jovem que, após se formou, largou família, dinheiro e um futuro certo para viajar pelos EUA, tendo como destino final morar no Alasca. A postura ascética de Chris tem por influência a leitura de autores como Thoreau.

Hedonismo e Transgressão na Poética de Allen Ginsberg

18º colóquio, realizado em 7 de Junho.

1. BIOGRAFIA


- Allen Ginsberg nasceu em 3 de Junho de 1926, em Newark. “Foi uma criança complicada e tímida, dominada pelos estranhos e assustadores episódios de sua mãe, uma mulher completamente paranóica, que acreditava que o mundo conspirava contra ela. Ao mesmo tempo, Allen teve que lutar para compreender o que estava acontecendo dentro dele, já que era consumido pela luxúria de outros meninos de sua idade.
Na escola secundária, descobriu a poesia, mas logo ao ingressar na Universidade de Columbia, fez amizade com um grupo de jovens delinquentes, filósofos de almas selvagens (entre eles Jack Kerouac), obcecados igualmente por drogas, sexo e literatura. Ao mesmo tempo em que ajudava os amigos a desenvolverem os seus talentos literários, Allen perdia de vez a sua ingenuidade, experimentando drogas, freqüentando bares gays em Greenwich Village e vivendo seus affairs homossexuais. Assumindo um estilo de vida bizarro, como se procurasse em si mesmo a face da loucura de sua mãe, Ginsberg acabou em tratamento psiquiátrico”
. (Wikipédia em português)
- “Ler Ginsberg (...) é uma experiência tensa, difícil e por vezes traumática. Contudo, a leitura final desse livro reitera o amor como princípio e fim de tudo. E a inquietude como uma virtude para não sucumbir à opressão e à mediocridade.” (Leonardo Vinhas, do “Scream and Yell”)
- “Traduzir Ginsberg é enfrentar sua prosódia e ritmo, usando a riqueza sonora da fala americana, nisso baseando-se consideravelmente em Williams. É uma poesia sonora, para ser lida também em voz alta. A métrica tradicional é substituída por recursos rítmicos, tais como o contraste entre vogais abertas e fechadas, longas e curtas, como em and battered bleak of brain all drained of briliance (o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho) ou em and kind king light of mind, que traduzi como e a suave soberana luz da mente. Procurei manter esses valores sonoros, e o ritmo das suas frases, recorrendo a aliterações e rimas internas.” (Cláudio Willer, tradutor da edição brasileira de “Uivo e Outros Poemas”)
- “Creio que a obra ''beat'' é tão forte que já pode ser tomada como referência literária. Nós tocamos em questões permanentes: o império americano, ecologia, revolução sexual, censura. Também há a questão do ''terceiro caminho'', nem comunismo nem capitalismo, que pregávamos enquanto os intelectuais procuravam extremos do marxismo ou do anticomunismo. Nossa preocupação é alterar estados de consciência e achar soluções ecológicas, não ideológicas.” (o próprio Ginsberg, em entrevista para a Folha em 1994)
- Faleceu em Nova York, aos 70 anos, em 5 de Abril de 1997.

2. “UIVO”


- “Allen Ginsberg wrote the poem "Howl" in the summer of 1955, purportedly at a coffeehouse known today as the Caffe Mediterraneum in Berkeley, California. Many factors went into the creation of the poem. A short time before the composition of "Howl," Ginsberg's therapist, Dr. Philip Hicks, encouraged him to quit his job and pursue poetry full time. (…)He was under the immense influence of William Carlos Williams and Jack Kerouac and attempted to speak with his own voice spontaneously. (…)The first draft contained what would later become Part I and Part III. It is noted for relating stories and experiences of Ginsberg's friends and contemporaries, its tumbling, hallucinatory style, and the frank address of sexuality, specifically homosexuality, which subsequently provoked an obscenity trial. (…)the primary emotional drive was his sympathy for Carl Solomon, to whom it was dedicated; he met Solomon in a mental institution and became friends with him. Ginsberg admitted later this sympathy for Solomon was connected to bottled-up guilt and sympathy for his mother's schizophrenia (she had been lobotomized), an issue he was not yet ready to address directly.”
-> Part I
Called by Ginsberg, "a lament for the Lamb in America with instances of remarkable lamb-like youths," Part I is the best known, and communicates scenes, characters, and situations drawn from Ginsberg's personal experience as well as from the community of poets, artists, political radicals, jazz musicians, drug addicts, and psychiatric patients whom he encountered in the late 1940s and early 50's. These people represent what he considers "the best minds of my generation," an ironic declaration since, in what members of the Beat Generation considered the oppressively conformist and materialistic 50's, those Ginsberg called "best minds" were unrepresented outcasts. The shocking aspect of the poem was further enhanced by Ginsberg's frank descriptions of sexual, often homosexual, acts. Most lines in this section contain the fixed base "who". In "Notes Written on Finally Recording Howl," Ginsberg writes, "I depended on the word 'who' to keep the beat, a base to keep measure, return to and take off from again onto another streak of invention."
-> Part II
Ginsberg says that Part II, in relation to Part I, "names the monster of mental consciousness that preys on the Lamb." Part II is a rant about the state of industrial civilization, characterized in the poem as "Moloch". Ginsberg was inspired to write Part II during a period of peyote-induced visionary consciousness in which he saw a hotel façade as a monstrous and horrible visage which he identified with that of Moloch, the Biblical idol in Leviticus to whom the Canaanites sacrificed children. Ginsberg intends that the characters he portrays in Part I be understood to have been sacrificed to this idol. Moloch is also the name of an industrial, demonic figure in Fritz Lang's Metropolis, a film that Ginsberg credits with influencing "Howl, Part II" in his annotations for the poem (see especially Howl: Original Draft Facsimile, Transcript & Variant Versions). Most lines in this section contain the fixed base "Moloch". Ginsberg says of Part II, "Here the long line is used as a stanza form broken into exclamatory units punctuated by a base repetition, Moloch."
-> Part III
Part III, in relation to Parts I, II, and IV is "a litany of affirmation of the Lamb in its glory," according to Ginsberg. It is directly addressed to Carl Solomon, whom Ginsberg met during a brief stay at a psychiatric hospital in 1949; called "Rockland" in the poem, it was actually Columbia Presbyterian Psychological Institute. This section is notable for its refrain, "I'm with you in Rockland," and represents something of a turning point away from the grim tone of the "Moloch"-section. Of the structure, Ginsberg says Part III is, "pyramidal, with a graduated longer response to the fixed base."
-> Footnote
The closing section of the poem is the "Footnote", characterized by its repetitive "Holy!" mantra, an ecstatic assertion that everything is holy. Ginsberg says, "I remembered the archetypal rhythm of Holy Holy Holy weeping in a bus on Kearny Street, and wrote most of it down in notebook there ... I set it as 'Footnote to Howl' because it was an extra variation of the form of Part II."
-> Rhythm
The frequently quoted (and often parodied) opening lines set the theme and rhythm for the poem:
I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix;
Angel-headed hipsters burning for the ancient heavenly connection
to the starry dynamo in the machinery of night.
Ginsberg's own commentary discusses the work as an experiment with the "long line". For example, Part I is structured as a single run-on sentence with a repetitive refrain dividing it up into breaths. Ginsberg said, "Ideally each line of 'Howl' is a single breath unit. My breath is long — that's the measure, one physical-mental inspiration of thought contained in the elastic of a breath."
On another occasion, he explained: "the line length ... you'll notice that they're all built on bop — you might think of them as a bop refrain —chorus after chorus after chorus — the ideal being, say, Lester Young in Kansas City in 1938, blowing 72 choruses of 'The Man I Love' until everyone in the hall was out of his head..."
->Trial: "Howl" contains many references to illicit drugs and sexual practices, both heterosexual and homosexual. On the basis of one line in particular
"who let themselves be fucked in the ass by saintly motorcyclists, and screamed with joy"
customs officials seized 520 copies of the poem on March 25, 1957, being imported from the printer in London.
A subsequent obscenity trial was brought against Lawrence Ferlinghetti, who ran City Lights Bookstore, the poem's new domestic publisher. Nine literary experts testified on the poem's behalf. Supported by the American Civil Liberties Union, Ferlinghetti won the case when Judge Clayton Horn decided that the poem was of "redeeming social importance". The case was widely publicized (articles appeared in both Time and Life magazines).
” (Wikipédia em inglês)

3. INFLUÊNCIA


- “Ginsberg tinha muitos fãs, entre eles Jim Morrison, do grupo The Doors. Morrison era tão viciado nas poesias e obras dele que dizia escrever suas músicas após ter lido algum de seus poemas. Sabe-se que Ginsberg e a banda The Clash eram fãs recíprocos. O poeta fez uma participação especial na música Ghetto Defendant, cantando ao lado de Joe Strummer trechos de um de seus poemas. Ian Astbury, lider da banda The Cult e amigo pessoal dos músicos dos The Clash, que recitava Howl (Uivo) no inicio dos shows, é um grande propagador da obra de Ginsberg, ao qual dedicou a música Bodihsatwa, do seu album solo Cream, que fala sobre zen-budismo e poetas beat.” (Wikipédia em português)
- Influenciados: “Bob Dylan, Wavy Gravy, LeRoi Jones, Robert Lowell, John Lennon, Paul McCartney, Andrei Codrescu, Saul Williams, Hunter S. Thompson, Rage Against the Machine, Beau Sia, Jim Morrison, Patti Smith, John S. Hall” (Wikipédia em inglês)

Introdução - Ciclo sobre Cultura Americana

O projeto Estudos Humanistas, ao longo do mês de Junho, desenvolverá várias atividades no sentido de discutir a cultura dos Estados Unidos. O eixo temático tem a ver com o próprio tema do grupo em 2010: a Liberdade.
O anseio por independência é reconhecido como um traço recorrente da arte e sociedade americanas, atravessando gerações de mediadores culturais, sejam eles de cunho sociopolítico ou estético.
Estudaremos a obra de quatro escritores: Allen Ginsberg, com o poema “Uivo” e sua contestação moral e cultural audaciosamente subversiva; Jack Kerouac, cujo “On The Road” foi epítome dos anseios de toda uma geração que resolveu ‘botar o pé na estrada’ para conhecer melhor a sua própria nação, inclusive como forma de autoconhecimento; J. D. Salinger, que expressa em “O Apanhador no Campo de Centeio” toda a rebeldia, a ansiedade e o deslocamento que marcam a vida de um adolescente; e Henry David Thoreau, que foi pioneiro no individualismo anárquico, tão tipicamente americano, demonstrando também preocupações ambientais e humanísticas.
Além disso, assistiremos a dois filmes: “Johnny vai à Guerra” e “Na Natureza Selvagem”. Com isso, elucidaremos outras facetas da identidade americana (ou contestação da mesma), seja em um contexto bélico ou por meio de um andarilho que, em sua empreitada, sintetiza características discutidas nos romances e poemas anteriormente lidos.
Buscar-se-á, com este ciclo, incentivar novas percepções e discussões sobre as manifestações culturais e artísticas dos EUA, entendendo o que há de erudito em sua faceta pop e vice-versa, tendo como norte a vontade de autonomia e de auto-governo, que continuam a ser marcas de tal país.


junho 08, 2010

6º GEH - Henry David Thoreau, Walden

“Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido”

(Capítulo 2 – “Onde, e para que vivi”, Walden)

O projeto Estudos Humanistas propõe-se a fomentar o cultivo do livre pensamento e o aprofundamento em temáticas que contribuam para uma formação mais humana dos estudantes, assim como da comunidade em geral. Por meio de círculos de leituras, nosso grupo de estudos discute algumas obras clássicas dos séculos XIX e XX.
Ainda dentro do tema de 2010 (Liberdade), mas também se relacionando com nosso ciclo deste mês de Junho, sobre Cultura Americana, nesta semana leremos “Walden, ou A Vida nos Bosques”, a obra-prima do escritor americano H. D. Thoreau (1817-1862).
Qual é a liberdade desejada por Thoreau? De que maneira sua filosofia de vida demonstra um individualismo anárquico e, ao mesmo tempo, uma defesa apaixonada da natureza? Qual a sua influência sobre o pensamento social e filosófico americano?

Sugestão de leitura: capítulos 1 (“Economia”), 2 (“Onde, e para que vivi”), 3 (“Leituras”), 5 (“Solidão”), 6 (“Visitantes”), 11 (“Leis superiores”), 12 (“Vizinhos irracionais”) e 18 (“Conclusão”).
 Obs.: Os mais importantes para a discussão estão em itálico. O texto está na pasta 11 da xerox da FA.  

Sexta-feira, 11 de Junho, às 15h, na Sala de Reuniões do IPOL.

Próximas atividades do ciclo sobre Cultura Americana:

14/6 – Colóquio sobre “On The Road”, Jack Kerouac – Café Senhoritas, 408 Norte, às 20h
21/6 – Colóquio sobre “O Apanhador no Campo de Centeio”, J. D. Salinger - Café Senhoritas, 408 Norte, às 20h
24/6 - Exibição e debate sobre o filme "Johnny vai à Guerra", Dalton Trumbo - em parceria com o PET/POL, às 12h, na sala A1-04 da FA
28/6 – Exibição e debate sobre o filme “Na Natureza Selvagem”, Sean Penn

maio 28, 2010

Individualidade e Diversidade em Stuart Mill

5ª reunião do grupo de Estudos Humanistas, realizada em 28 de Maio.

1 – Biografia
- John Stuart Mill nasceu em 20 de Maio de 1806, na cidade de Londres. Em sua infância, foi educado desde cedo para ser “o perfeito utilitarista”. Estudou grego aos 3 anos, e até os 12 já tinha fartos conhecimentos em filosofia, economia política, matemática, literatura clássica e história. Além disso, revisava textos de seu pai (James Mill) e de seu padrinho Jeremy Bentham.
- Entrou em colapso aos 20 anos. Sua crise nervosa, que durou seis meses, foi motivada pela perda de sua fé em uma educação que havia o tornado “uma madeira”, com uma vida previsível, linear, expectativas e pressões de seu meio social e, ainda por cima, desprovida de emoções. Porém, quando chorou ao ler um romance, descobriu que ainda tinha sentimentos. Tal experiência influenciou toda a sua produção intelectual posterior.
- Três anos depois conheceu Harriet Taylor, a grande paixão de sua vida. Como ela já era casada, passou vinte anos sendo o melhor amigo dela, em uma relação platônica que chocou a sociedade vitoriana. Dois anos depois que ela ficou viúva, eles se casaram. Em seus sete anos de um matrimônio cheio de cumplicidade, viveram em profundo isolamento em relação à vida social. Harriet faleceu em 1858, e Mill decidiu voltar a publicar seus escritos.
- Principais obras: “Princípios de Economia Política” (1848), “Sobre a Liberdade” (1859), “Considerações sobre o Governo Representativo” (1861), “Utilitarismo” (1863) e “A Sujeição das Mulheres” (1869).
- Aclamado como um dos maiores britânicos de sua geração, morreu em Avignon (França), em 1873.

2 – Interpretação
- Após salientar que os conflitos entre liberdade e autoridade permearam toda a história da humanidade, o autor resgata o conceito tocquevilliano de “tirania da maioria”. Este despotismo social ocorre quando a opinião de uma maioria procura se impor sobre possíveis dissidências. Deve-se evitar os dois extremos: a ação excessiva do Estado nas relações sociais, assim como uma completa omissão.
- Um princípio bem simples, que oriente a relação entre sociedade e indivíduo: o único fim para o qual a humanidade está permitida a agir com poder coercitivo, é a auto-proteção, ou seja, para prevenir o dano de um membro da comunidade a outros. No que concerne aos outros, a sociedade pode interferir, mas se for uma questão que envolva apenas o próprio indivíduo, sua independência é absoluta. Sobre seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano.
- Liberdade é procurar o seu próprio bem à sua própria maneira. O estabelecimento de limites às ações dos outros é importante para que as ações de um/uns não constranjam o comportamento dos demais.
- Respeito ao pensamento minoritário; discutir e experimentar. Mesmo se todos os seres humanos, exceto um, tiverem uma mesma opinião, nada daria a eles o direito de oprimir esse dissidente, assim como este também não teria o direito de, caso tivesse poder para tal, silenciar a maioria.
- Exemplos históricos: Jesus e Sócrates (ambos dissidentes que foram mortos por terem permanecido íntegros a seus ideais), Marco Aurélio (um dos mais cultos imperadores romanos, infelizmente também perseguiu os cristãos), Reforma (demorou séculos até ganhar força política suficiente). Por último, o autor utiliza o exemplo de Rousseau e o Iluminismo para mostrar que mesmo aquele que só tem razão em alguns pontos ainda assim pode quebrar o consenso o pensamento dos demais (no caso, a crítica à civilização).
- Questiona-se a idéia de que unanimidade seria um critério de verdade. É ressaltada a importância da liberdade de expressão. Mesmo se uma idéia for errada, deve-se defender o direito de opiná-la; se ela for verdadeira, é a oportunidade para que as pessoas mudem de idéia; se ambas forem meias-verdades, pode ocorrer a combinação dos aspectos corretos de cada uma delas. O autor cita o exemplo de Sócrates e Platão para falar da dialética (diálogo) como meio de sempre renovar os pensamentos e concepções, saindo assim dos lugares-comuns. O cristianismo é um bom exemplo de doutrina que incorporou aspectos de outras culturas e filosofias de vida, mas que corre o risco de estagnar caso se torne uma moralidade “pura” e inquestionável.
- Como a humanidade é imperfeita, deve haver diversidade de experiências de vida. Ao mesmo tempo, o bem-estar é mais bem alcançado se houver um livre desenvolvimento da individualidade, que é intrinsecamente boa. Mill estabelece um diálogo com Humboldt, ao relembrar o argumento deste de que o fim do homem é o mais alto e harmonioso desenvolvimento de seus poderes para um todo completo e consciente. Individualidade + diversidade = originalidade.
- Cultivo do ser humano: o indivíduo deve poder fazer escolhas; assim, será livre para usar e interpretar a experiência humana à sua própria maneira. Os costumes são úteis paras certas circunstâncias, mas não desenvolvem qualidades distintas. Os poderes mentais e morais só se aprimoram na medida em que são usados; eis a importância da formação do caráter.
- Diferentes pessoas precisam de diferentes ambientes para desenvolverem-se espiritualmente. Tal independência é uma forma de resistência ao despotismo, pois, mesmo que poucos possam mudar as práticas estabelecidas, isso já é suficiente para impedir a estagnação. É indispensável que haja uma atmosfera de liberdade, para que pessoas de gênio possam se desenvolver. Há o perigo da mediocridade coletiva – indivíduos perdidos na multidão. A excentricidade, portanto, é valiosa.
- O despotismo dos costumes (ex.: China) ocorre quando há um nivelamento moral, uma uniformização cultural; elimina-se qualquer desvio do padrão social; cessa-se a posse de individualidade. Além de anular o espírito de autonomia e aprimoramento, a sociedade torna-se estacionária, com cada vez menores espaços e oportunidades para inovação. Eis o moderno regime da opinião pública, que desacostuma os humanos à variedade de situações.
- Limites da autoridade da sociedade: Mill lida com a idéia aristotélica de meio-termo, a justa medida como orientação para definir a esfera do individual e do social. Embora a sociedade não seja constituída por um contrato, há certos deveres e condutas sociais a serem seguidas. Quando a ação de uma pessoa prejudica o interesse de outras, a sociedade tem jurisdição sobre isso; injúria e negócios que prejudicam o interesse público (más condições nos local de trabalho), por exemplo.
- Certas legislações sociais e interferências do público prejudicam o florescimento do indivíduo; de quebra, costuma-se intervir errado, em âmbitos errados. É importante lembrar que nenhuma comunidade tem o direito de forçar a outra a ser civilizada. Muitas vezes, a barbárie está entre nós.
- Educação estatal: há o risco de se moldar as pessoas a serem exatamente umas como as outras, o que prejudica a individualidade e a diversidade. Em outras palavras, a ameaça de um despotismo sobre a mente. Mesmo os exames de qualificação são parciais a certas visões de mundo, prejudicando a pluralidade de opiniões; eles deveriam ser voluntários. A formulação da educação universal virou uma batalha político-partidária: o que ensinar, como ensinar. O Estado deveria custear somente a educação das classes mais pobres, e deixar aos pais o direito de decidir como conduzir a formação de seus filhos.
- Alguma regulação do Estado pode vir a ser positiva, mas ele não pode interferir excessivamente nas atividades econômicas. Às vezes, os indivíduos resolvem os problemas melhor do que o governo, mas também há um lado pedagógico - exercer seu julgamento e treinar sua cidadania; enfim, uma educação mental. A administração dos negócios puramente locais, por exemplo, deve ficar a cabo das localidades.

3 – Revisão bibliográfica
- Gertrude Himmelfarb: pode-se compreender muito da obra de Mill a partir de sua história de vida. Após o colapso nervoso, o autor passou a acreditar que a “cultura interna do indivíduo” (poesia, arte, música, natureza...), tão subestimada pelos utilitaristas, deve ser tão valorizada quanto a “cultura intelectual”. Ela é importante para a busca da felicidade, pois estimula as sensibilidades e paixões do indivíduo.
- David Fleischer: “Sobre a Liberdade” se tornou a defesa clássica da liberdade em língua inglesa. A marca de uma sociedade liberal é o direito do indivíduo de ser “convencido” e não coagido. A liberdade política, portanto, justifica-se na medida em que fortalece um caráter moral individual. A obra é um clamor por uma opinião pública tolerante. Stuart Mill é enigmático, no sentido de que era um empiricista que quase virou idealista, um utilitarismo que muito minou tal doutrina, um determinista que queria acreditar na vontade livre e um individualista que se tornou uma espécie de socialista (não no sentido estatal, mas enquanto cooperação voluntária).
- J.W. Burrow: como já foi dito anteriormente, as idéias de Stuart Mill sobre individualidade e diversidade inspiraram-se em “Os Limites da Ação do Estado”, escrito por Wilhelm von Humboldt. A própria epígrafe de “Sobre a Liberdade” foi retirada de tal ensaio. Porém, Mill tinha influências positivistas, não tendo uma faceta de “explorador faustiano” de Humboldt; por exemplo, ele expressa uma noção evolucionista ao falar que a livre competição de idéias e estilos de vida permite o acesso a verdades, as quais permitiriam um aprimoramento das condutas dos homens.
- Iain Hampsher-Monk: pode-se traçar uma história das mentalidades para entender o pensamento de John Stuart Mill. É um autor que mescla influências do utilitarismo (Bentham e seu próprio pai, James Mill; conseqüencialismo, uma defesa de algo por seus benefícios sociais), elitismo (Carlyle e Coleridge; a importância de opiniões diferentes em relação às das massas), utopismo (Saint-Simon) e liberalismo republicano (Tocqueville; o estudo das relações entre a cultura política democrática e a independência de pensamento). A liberdade igualitária foi marca registrada dessa síntese filosófica que se seguiu a seus primórdios utilitários.

4 – Influências
- Libertarianismo: sua contundente defesa da liberdade pessoal converge com uma das teses centrais da filosofia libertária. O argumento é de que somente sob liberdade que os seres humanos podem descobrir e expressar possibilidades das mais gloriosas.
- Social-Liberalismo: em textos como “Considerações sobre o Governo Representativo”, Mill aponta uma função educativa nas instituições políticas. Além de defender um sistema eleitoral que permitisse uma representação mais proporcional e que valorizasse candidatos mais ilustrados, afirma o autor que é por meio da participação que os cidadãos “aprendem” a democracia.
- Feminismo: em “A Sujeição das Mulheres”, que trata da emancipação e educação feminina, o pensador fala da necessidade se mudar os papéis da mulher no casamento. Além disso, rejeita uma suposta inferioridade delas em relação aos homens e defende que o sufrágio seja estendido às mulheres.
- Filosofia política contemporânea: embora não seja contratualista, Mill exerceu influência sobre pensadores como John Rawls (justiça), Robert Nozick (utopia) e Will Kymlicka (multiculturalismo), no que tange a suas preocupações com a autonomia e o respeito à pluralidade de valores e opiniões.
- Tornou-se um cânone instantâneo para o liberalismo do século XIX. É considerado como uma síntese da cultura política britânica daquela época, ao expressar simultaneamente idéias utilitaristas e preocupações de ordem mais ética.

maio 25, 2010

5º encontro: Stuart Mill e "A Liberdade"

“Se todos os seres humanos, menos um, tivessem uma opinião, e apenas uma pessoa tivesse a opinião contrária, os restantes seres humanos não teriam mais justificação para silenciar essa pessoa, do que essa pessoa teria justificação para silenciar os restantes seres humanos, se tivesse poder para tal.”

(Capítulo II, “Sobre a liberdade de pensamento e discussão”, de “Ensaio Sobre a Liberdade”)

Aberto à comunidade, o projeto de extensão Estudos Humanistas tem como propósitos a formação cultural e humanística, buscando-as por meio da leitura e discussão de autores fundamentais de diversas áreas do conhecimento: Filosofia, Literatura, Política, Economia etc.

Como o tema do grupo de estudos ao longo de 2010 é a Liberdade, assim como os vários conceitos possíveis sobre ela, a obra de Stuart Mill (1806-1873) é de importância inestimável. Seu "Ensaio Sobre a Liberdade" contém uma defesa contundente das da autonomia do indivíduo e suas implicações.
Como este pensador britânico relaciona as várias facetas da liberdade (econômica, política, moral, cultural)? Qual a história das mentalidades que podemos desvendar na construção deste texto? Seria Mill o último dos liberais clássicos e o primeiro dos social-liberais e dos libertários?

A leitura do texto integral é recomendável, com ênfase nos capítulos I (“Introdução”) e III (“Da Individualidade como um dos Elementos do Bem-Estar”).

Sexta-feira, dia 28 de Maio, às 15h, na sala A1-04 (FA).

Humboldt e o Liberalismo como "Bildung"

17º colóquio, a ser realizado em 31 de Maio.


1 – Biografia
- Wilhelm von Humboldt nasceu em Potsdam, em 1767. Em sua adolescência, estudou filosofia, grego, francês, administração e ciências.
- Dedicou-se ao serviço público no início de sua fase adulta, tendo se desiludido com o mesmo ao longo da sua vida.Entre 1802 e 1819, dedicou-se à diplomacia, justamente no período das Guerras Napoleônicas. Também foi filólogo, sendo apontado como pioneiro na hipótese da relatividade lingüística (cada língua reflete o espírito da nação que a utiliza).
- Fundou a Universidade de Berlim, na época em que foi Ministro da Educação da Prússia. Responsável pelo famoso sistema educacional prussiano, que valoriza a formação da personalidade individual e do pensamento independente.
- Principais obras: “Os Limites da Ação do Estado” (1792, publicada em 1851), “Teoria sobre a Educação Humana” (1793), “Os Bascos” (1821) e “Sobre a diversidade da estrutura da linguagem humana” (1835).
- Veio a falecer na cidade de Tegel, aos sessenta e sete anos, em 1835.

2 – “Os Limites da Ação do Estado”
- Introdução: qual a finalidade do Estado? Quais os limites que devem ser estabelecidos para as atividades do mesmo? A vida particular dos cidadãos é diretamente afetada pela esfera de atuação do governo, pois é a partir dela que se delimita outra esfera: a da atividade livre e espontânea. Oposição entre antigos e modernos: “os antigos dedicavam sua atenção à força e à cultura do homem enquanto homem; os modernos preocupam-se, sobretudo, com o seu conforto, prosperidade e produtividade. Os primeiros se preocupavam com as virtudes, os segundos procuram a felicidade”. (Comparar com Constant e Tocqueville)
- “Bildung”: Formação cultural, em que a energia está orientada para um fim (totalidade completa e consistente). Desenvolvimento pleno das potencialidades da personalidade, sendo que a grandeza do homem reside na originalidade; diferenciação múltipla. Nas palavras do autor, “o verdadeiro fim do Homem é o cultivo mais completo e harmonioso possível de suas forças para integrá-las em uma totalidade”. Para que essa individualidade floresça, a liberdade e a variedade de situações (pluralidade) são indispensáveis.
- O Estado e o bem-estar positivo: interferência do Estado em assuntos particulares, como forma de “incentivar a felicidade”. Por exemplo, políticas econômicas, como subsídios, tarifas e proibições. Poucas dessas medidas são realmente necessárias, desviando a preocupação dos fins para os meios. Além disso, são nocivas, ao tentarem uniformizar uma multidão heterogênea. “O que não foi escolhido pelo próprio homem não se incorpora ao seu ser, permanece sempre alheio, não é feito com energia propriamente humana, mas com habilidade mecânica.”
- O Estado e o bem-estar negativo: segurança (liberdade dentro da lei), “impedir o mal”. Muitas coisas que estão sob competência do Estado poderiam muito bem ser feitas pela própria nação. Há apenas uma tarefa que só a organização estatal pode realizar melhor do que os próprios indivíduos: a garantia da segurança, tanto em relação a dissidências internas quanto a inimigos externos.
- Educação pública: eis a 1ª das três formas de modificar os costumes e o caráter de uma população. Deve o Estado interferir em alguma delas? Na educação, a resposta é “não”, pois ela lida com a formação do homem em sua mais rica diversidade, e um modelo público limitaria as finalidades; por exemplo, quando quer ensinar valores civis. O homem não pode ser sacrificado ao cidadão; devem coincidir. (“Educar para a liberdade e libertar para educar”, diria Merquior).
- Religião: estão a moralidade e a religiosidade inseparáveis? Não, pois a assimilação de certos valores socialmente benéficos não necessariamente precisa de uma orientação religiosa. Porém, quando o Estado as vê como indissociáveis, os resultados são perigosos; ele prefere uma religião à outra, e tenta impô-la. Porém, estas questões deveriam ser deixadas ao livre juízo da comunidade; a tolerância religiosa permite o livre desenvolvimento dos sentimentos humanos. Eis o aspecto estético da religião. 
- Aprimoramento da moral: a imoralidade origina-se numa propensão excessiva da alma ao sensual. No entanto, “o sensual e o espiritual estão ligados por um vínculo misterioso, sentido por nossas emoções, mas escondido de nossos olhos”. Surgem daí os sentimentos estéticos, as idéias de belo e sublime, lidando assim com os poderes morais e intelectuais do homem. O homem é mais propenso a ações beneficentes do que egoístas. Deixar o indivíduo por conta própria é melhor do que lhe atribuir uma intencionalidade. A meta positiva é novamente rechaçada; não cabe ao Estado moldar a moral da população; leis da luxúria, p.ex.
- Família (matrimônio e filhos): o casamento não deveria ser um contrato civil, pois isso o desvia de sua finalidade, que é a cumplicidade, a elevação mútua. As relações matrimoniais não devem sofrer coerção de qualquer espécie. Os pais devem educar as crianças até que estas estejam maduras, e cabe aos filhos ajudar seus progenitores a cumprir tais obrigações. Cabe ao Estado determinar a duração da menoridade.
- Leis policiais, civis e penais: quanto às primeiras, argumenta-se que “o Estado deve proibir ou limitar aquelas ações relativas imediatamente só ao agente, cujas conseqüências infringem os direitos dos outros”, atacando “sua liberdade ou sua propriedade sem o consentimento deles ou contrariamente a eles”. Para a resolução de disputas entre os cidadãos, sugere-se a consulta ao desejo das partes, para que a investigação só se atenha ao indispensável. Por último, fala-se que a pena mais grave deve ser a mais branda possível, sempre considerando as circunstâncias de tempo e lugar. A punição cabe àquele que transgrediu intencionalmente ou com culpa, e somente na medida em que afetou o direito alheio.
- Aplicação prática: não se deve transferir princípios teóricos direto para a realidade, sem um exame cuidadoso das circunstâncias. A reforma é preferível à revolução, pois os hábitos e costumes mudam gradualmente, e uma mudança institucional súbita só prejudicaria o processo. A cultura de cada povo, assim como sua formação para a liberdade, deve ser levada em consideração para definir o grau de reforma. 

3 – Influência
- John Stuart Mill: tanto na concepção do Estado “vigia noturno” quanto na ênfase culturalista/pluralista, há ecos de Humboldt na obra de Mill. A consideração da liberdade como elevação de caráter e aperfeiçoamento moral está presente no “Ensaio sobre a Liberdade”.
- Liberalismo alemão: noção de “Estado de direito” (legal, organizado em direitos) perpassa o pensamento político germânico desde o século XIX.
- O sistema educacional de países como os Estados Unidos e o Japão tem influências do modelo prussiano.
- Sua teoria da linguagem influenciou até Noam Chomsky, ao conceber a linguagem como um sistema que, a partir de um número finito de regras gramaticais, torna possível criar um número infinito de sentenças.

maio 15, 2010

O Impacto da Igualdade de Condições na América de Tocqueville

4ª reunião do grupo de Estudos Humanistas, realizada em 14 de Maio.

1. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA (a ser ampliado)
- Raymond Aron, “As Etapas do Pensamento Sociológico”: um sociólogo que não acredita em leis inexoráveis.
- François Châtelet, “História das Idéias Políticas”: liberalismo começa a perder sua aversão pela democracia, mesmo que preocupado com a tensão entre igualdade e liberdade.
- Helga Gahyva, “De Boulainvilliers a Tocqueville: da liberdade como defesa de privilégios à liberdade como defesa de diferenças”: demofobia expressa na defesa de garantias aristocráticas.


2. INTERPRETAÇÃO
- Premissas de Tocqueville: subjetivismo ontológico, mas não epistemológico. A igualdade não é a causa única para explicar os fenômenos sociopolíticos da Europa e da América. Porém, sua preocupação com os males que uma democracia desenfreada pode enfrentar influencia sua escolha de tema de pesquisa. Sendo assim, ele procura analisar como a igualdade de condições expressou-se sob as mais diversas formas sobre a cultura e a sociedade americanas.
- O método filosófico dos americanos: preferência pelas idéias gerais ao invés das particularidades. Cada americano só apela para o esforço individual de sua razão, sem recorrer tanto à tradição; é colocar em prática o que Descartes propunha. Como não dispõe de tempo para se dedicar a todas as investigações e indagações, apega-se a teorias gerais sobre os mais diversos assuntos, como exceção daqueles que estão mais próximos de sua realidade. Há, portanto, uma tendência para a cultura genérica e a especialização, porém menor que na França e maior que na Inglaterra. A independência de espírito surgida com a igualdade de condições nunca é tão grande quanto no momento da revolução democrática; ela própria estabelece seus limites.
- Fisionomia literária de uma democracia: menor refinamento e maior acessibilidade; obras se popularizam. Há pouquíssimos grandes escritores nos EUA, mas a maior parte da população é alfabetizada. Não há a preocupação estilística (“desejar falar diferente do vulgo”) tão presente na aristocracia; há maior variedade e fecundidade e menor profundeza e erudição. A própria existência mais prática, com menos ócio do que nas sociedades baseadas em “status”, influencia nessas tendências artísticas.
- A importância da literatura grega e latina: as letras clássicas podem ser úteis à literatura de um povo mesmo sem servir às suas necessidades sociais e políticas. Ou seja, as produções dos antigos têm qualidades especiais que podem servir de contrabalanço para nossos defeitos particulares. O que lhes falta em generalização sobra em perfeccionismo. Essa incansável busca pela beleza ideal é algo que falta aos escritores dos tempos democráticos. Não é porque tem caráter aristocrático (destinada a poucos) que deve ser desprezada.
- A busca pelo bem-estar material: eis uma paixão geral nos Estados Unidos. A destruição dos privilégios, a divisão dos patrimônios e a disseminação da liberdade e das luzes favorecem a ambição material. O desejo de alcançar uma fortuna particular era impossível em sociedades baseadas na hereditariedade, com o enorme “peso do passado”.
- O individualismo como fenômeno das sociedades democráticas: sentimento refletido que leva os cidadãos a se isolarem da massa de seus semelhantes, restringindo seu círculo social a familiares e próximos. Isso denota uma perda de virtude cívica, pois o indivíduo deixa de participar da vida pública para se dedicar à sua busca pessoal por interesses materiais. Com isso, favorece-se o despotismo, que nasce justamente do isolamento dos homens. A conduta individualista tende a ser maior em épocas revolucionárias, pois os ex-aristocratas deixam de se aproximar de seus semelhantes.
- O papel das associações: a liberdade de associação foi um recurso encontrado pelos americanos para combater os riscos trazidos pelo individualismo. Ao precisar agir em grupo mesmo nas instâncias locais, o cidadão começa a desenvolver afeição pelo seu vizinho. Ao colocar as pessoas em maior atividade em prol da comunidade, as instituições livres, como a imprensa, desenvolvem o interesse pelo bem público.
- A doutrina do interesse bem compreendido: nas sociedades democráticas, em relação à virtude, considera-se mais sua utilidade que sua beleza. Procura-se combinar (quem sabe confundir) o interesse particular com o interesse geral. Segue-se o caminho reto pelos resultados mais úteis que este traz. Obtém-se, assim, um egoísmo esclarecido, dirigindo as paixões. É uma doutrina clara e segura, mesmo que pouco elevada.
- A utilidade social da religião: freqüentemente as religiões são apenas modos gerais, simples e práticos de ensinar ao homem a imortalidade da alma, evitando a tentação do materialismo hedonista. Moldam-se as ações para se fixar crenças; os americanos viram a necessidade de moralizar a democracia pela religião.
- O abrandamento dos costumes: a reciprocidade na compaixão pelas misérias alheias aumenta nas sociedades democráticas, pois na aristocracia o indivíduo preocupa-se somente com o seu grupo; por exemplo, a indiferença (e até justificações) dos nobres pelos escravos. Os costumes se tornam mais brandos, com menos e menores punições àqueles que têm opiniões que fogem do consenso.
- Educação feminina: emancipação ou naturalização? Tocqueville argumenta que a democracia favorece o surgimento de mulheres mais independentes, donas do seu destino. Embora ainda apegadas às tarefas domésticas, elas têm maior responsabilidade moral e não caem nos excessos das mulheres européias, educadas para ser ingênuas e virginais – estando, assim, menos preparadas para quando forem abandonadas a si mesmas. O espírito da mulher americana pode ser menos casto, mas seus costumes são mais puros.
- Conflito e coexistência entre os valores de igualdade e liberdade: enquanto a primeira é uma paixão irresistível dos povos, a segunda precisa ser cultivada. Os povos democráticos suportam a pobreza, a servidão ou mesmo a barbárie, mas nunca a aristocracia. A própria idéia de direitos desiguais lhe é inconcebível. A igualdade, além disso, é mais difícil de ser conquistada; a liberdade, porém, pode ser perdida num piscar de olhos. Por outro lado, um dos efeitos políticos da igualdade é justamente o amor à independência, o que favorece instituições livres.
- A ameaça do despotismo democrático: a centralização dos poderes é defendida dentre os povos democráticos, pois a concepção de um poder único, central e de legislação uniforme é valorizada. Há, entretanto, sérios riscos nessa centralização, pois pode vir a se estabelecer um novo tipo de despotismo, mais suave e invasivo: degradaria os homens sem atormentá-los. Tocqueville recorre às metáforas da petrificação e da infantilização para descrever como essa servidão regulada atuaria. A existência de eleições livres não impediria a anulação progressiva da liberdade política perante um único senhor. Os efeitos se alastram para a liberdade privada, pois a própria consciência individual seria prejudicada.
- Recomendações: os homens de Estado dos séculos democráticos não podem desprezar o papel dos poderes secundários, das formas. A criação desses corpos (que podem inclusive ser associações locais) estabelece limites para o poder social, combatendo assim a servidão tutelar. Já que cada indivíduo é isolado e fraco, enquanto a sociedade é ativa e forte, é imprescindível garantir a liberdade de manifestação das minorias – pela imprensa, por exemplo. Os tempos nos quais o passado já não esclarece mais o futuro,

3. INFLUÊNCIA (a ser ampliado)
- Friedrich Von Hayek: tirania da maioria, mas pouca ênfase na liberdade pública.
- John Stuart Mill: preocupação com valores cívicos e elevação moral e espiritual do homem livre.
- Conservadores e social-liberais: os primeiros se apropriaram dos momentos demofóbicos de Tocqueville, enquanto os segundos herdaram seu republicanismo.
- Questão para reflexão: o que há de consensual e datado em Tocqueville?


maio 10, 2010

Quarta reunião do GEH - Tocqueville

“Como o passado já não esclarece o futuro, o espírito marcha nas trevas. Entretanto, em meio a esse quadro tão vasto, tão novo, tão confuso, (...) vejo que os bens e os males se repartem com razoável igualdade no mundo”
(Cap. VIII, 4ª parte, livro II de “A Democracia na América”)

O livro II de “A Democracia na América” tem um viés mais filosófico que seu antecessor; buscaremos explorar esta faceta especulativa de Tocqueville em nosso debate.
Como o autor reflete sobre temas tão diversos como método filosófico, literatura, individualismo, costumes e despotismo democrático?

Sugestão de leitura (O texto integral está na pasta 11 da Xerox do CADIR):
Primeira parte: Capítulos I, II, V, VIII a XI, XIII, XIV, XV e XX.
Segunda parte: Capítulos I a V, VIII, XIV a XVI e XX.
Terceira parte: Capítulos I, VIII, IX, XI, XII, XIV e XIX.
Quarta parte: Capítulos I a III e VI a VIII.

Em especial: capítulos I (“Do método filosófico dos americanos”), XIII (“Fisionomia literária dos séculos democráticos”) e XV (“Por que o estudo da literatura grega e latina é particularmente útil nas sociedades democráticas”) - 1ª parte; I (“Por que os povos democráticos mostram um amor mais ardente e mais durável pela igualdade que pela liberdade”) e II (“Do individualismo nos países democráticos”) - 2ª parte; I (“Como os costumes se abrandam à medida que se igualam as condições”) - 3ª parte; e VII (“Continuação dos capítulos anteriores”) e VIII (“Visão geral da matéria”) - 4ª parte.

Dia 14 de Maio, às 15h, na Sala de Reuniões do IPOL (FA).

maio 03, 2010

O Social-Liberalismo sob a ótica de Merquior

14º colóquio, realizado em 3 de Maio. Em breve, serão disponibilizados os fichamentos do 12º ("As Cidades no Século 19") e 13º (Benjamin Constant).

1 – Biografia
- José Guilherme Merquior nasceu em 22 de Abril de 1941, no Rio de Janeiro.
- Bacharel em Direito e com título de licenciatura em Filosofia, prestou concurso para o Itamaraty; passou em 1º lugar. Doutor em Letras pela Universidade de Paris, em 1972. Seis anos depois, obteve PhD em Sociologia pela London School of Economics and Political Science. Também concluiu o Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco (1979).
- Durante sua carreira diplomática, trabalhou em diversos países, como Uruguai, França, Alemanha e Reino Unido. Também foi membro da Academia Brasileira de Letras.
- Envolveu-se em várias polêmicas com a intelectualidade brasileira. Uma delas foi com o psicanalista carioca Eduardo Mascarenhas, pois Merquior considerava a psicanálise uma falsa ciência, “doença do intelecto”. Mascarenhas levou a disputa intelectual para o lado pessoal, questionando a sexualidade de seu opositor. José Guilherme, em uma crítica à superestimação da MPB, chamou Caetano Veloso de “pseudo-intelectual de miolo mole”. A mais famosa, no entanto, foi com Marilena Chauí, filósofa da Universidade de São Paulo, que teria plagiado (ou, nas palavras de Merquior, cometido uma “desatenção”) textos de seu namorado à época, Claude Lefort. A reação foi desproporcional, com direito a passeatas na USP “contra o neoliberalismo”.
- Intelectual enciclopédico, desenvolveu trabalhos nas áreas da Crítica Literária, Ciência Política, Sociologia e Filosofia. Principais obras: “A estética de Lévi-Strauss” (1975), “As Idéias e as Formas” (1981) “O argumento liberal” (1983), “Michel Foucault ou O niilismo da cátedra” (1985), “O Marxismo Ocidental” (1987) e “O Liberalismo: Antigo e Moderno” (1991).
- Faleceu em Janeiro de 1991, nos Estados Unidos, aos 49 anos, vítima de um câncer de intestino.

2 – “O Liberalismo: Antigo e Moderno”
- Conceito de Liberalismo: o liberalismo reflete a diversidade da história, tanto nos tempos antigos quanto nos modernos e contemporâneos. Sendo assim, é preferível fazer uma descrição comparativa do liberalismo, em suas diversas manifestações, do que tentar uma definição precisa. A tolerância religiosa e o governo constitucional foram os primórdios do pensamento liberal, evocando sua mensagem de divisão da autoridade e limitação do poder. Em contraposição a conservadores e utópicos radicais, o liberalismo defende a pluralidade de crenças e valores.
- Liberdade e Autonomia: autonomia é um conceito absoluto, evocando a ausência de constrangimentos (“freedom”); já a remoção de constrangimentos (“liberty”) é relativa. As três definições mais famosas de liberdade são: “direito de fazer tudo aquilo que a lei permite” (Montesquieu), “obediência à lei que nós nos prescrevemos” (Rousseau) e “fruição pacífica da independência individual ou privada” (Constant). Também podemos recorrer à divisão proposta por Berlin, entre positiva (independência de interferência, “livre de”) e negativa (incorporação de controle, “livre para”). Há em quatro tipos de autonomia, que apareceram na seguinte ordem histórica: liberdade como “intitulamento”, liberdade política, liberdade de consciência e crença e liberdade de realização pessoal.
- Três Escolas de Pensamento: na Inglaterra, os pensadores costumavam ver a liberdade como independência, “ausência de obstáculos externos”. Chocam-se, assim, com a tradição humanista (valores cívicos). A tradição francesa, ao contrário, tem um viés mais republicano, defendendo a liberdade política em oposição aos privilégios. Já a escola alemã, com uma preocupação cultural, trata da “bildung”: realização pessoal e desdobramento do potencial humano.
- Reivindicações do Liberalismo Social: para os social-liberais, o escopo da atuação do Estado deve ser menos minimalista, cabendo-lhe, portanto, a promoção “das condições favoráveis à vida moral”. A participação política é enaltecida, ligando-se à idéia de aperfeiçoamento social. Hobhouse, por exemplo, ambiciona uma sociedade orgânica que proporcionasse à maioria dos seus membros “uma igualdade viva de direitos” com oportunidades abundantes para o autodesenvolvimento industrial. Aumenta-se a preocupação com a justiça social e com os excessos do laissez-faire.
- Herança e Ruptura: embora mantenha caráter individualista, este novo liberalismo, surgido no fim do século XIX, revolta-se contra a liberdade negativa, propondo um resgate de sua faceta positiva. Resgatam a realização pessoal defendida por Mill e Humboldt, sendo o Estado e o direito as instituições habilitadoras.
- Liberdade e Igualdade: o liberalismo clássico, “estatofóbico”, preocupou-se mais com o liberismo (liberdade econômica) que com as desigualdades sociais; em suas vertentes conservadoras, demonstrou receios quanto à democracia. Já o social-liberalismo via uma missão civilizadora no “ethos” republicano e sua ênfase na igualdade de oportunidades.

3 – Influências
- Merquior, assim como seu mentor intelectual (e, durante alguns anos, chefe) Roberto Campos, foi uma das figuras mais importantes do renascimento liberal pelo qual o Brasil passou a partir dos anos 80.
- Segundo o filósofo Olavo de Carvalho ele era “a expressão de uma altíssima e nobre inteligência, que sempre retribuiu o mal com o bem”. Olavo também adotou a história das idéias como estratégia argumentativa.
- O governo de Fernando Collor de Mello, pelo menos em seus princípios, foi influenciado por Merquior. O social-liberalismo também se expressou nos programas partidários do PL (extinto em 2006) e do PSL (criado em 1997). Guilherme Afif Domingos, presidenciável em 1989 (6º colocado, 4,5% dos votos) e candidato ao Senado de São Paulo em 2006 (2º lugar, 43,7%), fez propostas orientadas por tal ideário.


4 - Referências bibliográficas
ALMEIDA, Paulo Roberto de. José Guilherme Merquior: 19 anos de sua partida.
MERQUIOR, José Guilherme. “O Liberalismo: Antigo e Moderno”. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991.
PEREIRA, José Mário. O fênomeno Merquior.